segunda-feira, 21 de maio de 2012

O depoimento de Xuxa e o abuso sexual de crianças e adolescentes



Xuxa revelou em entrevista para o programa Fantástico, da Rede Globo, que sofreu abuso sexual quando era criança até os 13 anos de idade. Foi um depoimento corajoso e emocionante. Em rede nacional, Xuxa colocou com força o dedo na ferida: o abuso sexual é muito mais frequente do que se imagina e é um problema que atinge muitas famílias brasileiras, especialmente as meninas e adolescentes do sexo feminino.   
Infelizmente muitas mulheres tem casos de abuso sexual para contar, vividos na infância e na adolescência. Não raro se sentem culpadas, com medo e com vergonha de falar sobre um assunto que é tão íntimo, avassalador e que na maioria das vezes deixa sequelas por toda a vida. A violência sexual praticada contra crianças e adolescentes é um crime covarde principalmente porque cometido contra quem não tem condições de se defender. Além disso, na maioria dos casos é praticado por um adulto que faz parte da família ou que integra os círculos de amizade e de confiança da família. Xuxa em seu depoimento falou sobre três homens: todos conhecidos e de alguma forma frequentadores da sua casa. E geralmente é assim mesmo: padrinhos, pais, padrastos, noivos da tia, amigos do irmão.
Cartilha para a campanha de prevenção
à violência sexual contra crianças e
adolescentes
O art. 4º do Estatuto da Criança e do Adolescente diz que é dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária. O Estatuto ainda garante que crianças e adolescentes devem ser protegidos de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.
Não por acaso, o depoimento de Xuxa foi no mês de maio, logo depois em que se registra o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, instituído por lei federal, em alusão a 18 de maio de 1973, quando a menina Araceli, 8 anos, foi raptada, drogada, estuprada, morta e carbonizada por jovens da classe média alta de Vitória (ES). Apesar de sua natureza hedionda, o crime prescreveu e os assassinos ficaram impunes.
Veja o que diz a revista Época, na coluna do Bruno Astuto:
"Os números alarmantes – 52 mil denúncias no Disque 100, mantido pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, entre 2003 e março de 2011 — não chegam aos pés da realidade. A maioria das crianças abusadas pelo pai (38% dos casos), pelo padrasto (29%), pelo tio, pelos vizinhos e por desconhecidos tem medo de denunciá-los e, quando o fazem, a família prefere abafar o escândalo — ou até mesmo é conivente com a situação".

Reproduzo aqui trecho da cartilha Educativa da Campanha de Prevenção à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes, divulgadas no último dia 18, em matéria da www.uol.com.br/brasil:

Entenda quais situações expõem crianças e adolescentes e ajude a combatê-las
1. Exploração econômica (trabalho infantil): É quando crianças e adolescentes são constrangidos, convencidos ou obrigados a exercer funções e a assumir responsabilidades de adulto, inapropriadas à etapa de desenvolvimento em que se encontram.
2. Negligência: É a falta de cuidados com a proteção e o desenvolvimento da criança ou adolescente.
3. Abandono: É a ausência da pessoa de quem a criança ou o adolescente está sob cuidado, guarda, vigilância ou autoridade.
4. Violência física: É o uso da força física utilizada para machucar a criança ou adolescente de forma intencional, não-acidental. Por vezes, a violência física pode deixar no corpo marcas como hematomas, arranhões, fraturas, queimaduras, cortes, entre outros.
5. Violência psicológica: É um conjunto de atitudes, palavras e ações que objetivam constranger, envergonhar, censurar e pressionar a criança ou o adolescente de modo permanente, gerando situações vexatórias que podem prejudicá-lo em vários aspectos de sua saúde e desenvolvimento.
6. Violência institucional: É qualquer manifestação de violência contra crianças e adolescentes praticada por instituições formais ou por seus representantes, que são responsáveis pela sua proteção.
7. Omissão institucional: É a omissão dos órgãos em cumprir as suas atividades de assegurar a proteção e defesa de crianças e adolescentes.
8. Violência sexual: É a violação dos direitos sexuais, no sentido de abusar ou explorar do corpo e da sexualidade de crianças e adolescentes.
*Informações da Cartilha Educativa da Campanha de Prevenção à Violência Sexual contra Crianças e Adolescentes
Em caso de suspeita de abuso, a denúncia deve ser feita pelo Disque 100 ou em postos policiais e no Conselho Tutelar da sua cidade; os serviços garantem o anonimato sobre as informações.
A apresentadora é uma ativista da luta pelo fim do abuso e exploração sexual de crianças e adolescentes, sendo protagonista de várias campanhas sobre esse tema.
Ao contar em rede nacional o drama vivido em sua infância e adolescência, Xuxa com muita coragem e propriedade gritou bem alto sobre um tema que é tabu, que machuca, que provoca danos irreparáveis e que precisa acabar.

Confira:
Entrevista de Xuxa no "Fantástico" (20/05/2012)
Leia mais:
DIa nacional de combate ao abuso sexual de crianças e adolescentes
Pedofilia e estupro de vulnerável
Xuxa, Natascha e a babaquice nossa de cada dia

4 comentários:

  1. Suely, que bom a posição de alguém. Gostei muito de seu post. Ontem publiquei idéias muito semelhantes às suas no facebook e apesar de ter muitas feministas em minha rede não houve manifestação alguma. Estava até agora me pergutando o motivo, na verdade ainda estou. Por que tanto silêncio? É preciso discutir isso, e muito! Enfim, que bom que você falou algo (e não digo isso simplesmente porque nossas idéias se assemelharam). Abraços em ti! Sheila Bezerra

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  2. Obrigada pela visita, Sheila. Fiquei mal com os comentários nas redes sociais, especialmente no twitter: monte de comentários toscos sobre se era verdade, se não era, por que só agora a Xuxa resolveu falar etc. E o que mais chama a atenção, que é o ato de violência sofrida, o abuso sexual, nada disso tinha relevância. Esse é um tema que o feminismo precisa se apropriar e aprofundar a discussão. O abuso sexual começa na infância mas as sequelas se estendem por muito tempo. Um abraço, querida.

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  3. Excelente artigo. Posicionado e muito informativo. Valeu, Suely. Beijos, Paula de Andrade

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  4. Obrigada, Paula. Volte sempre.

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