Mostrando postagens com marcador Aborto. Morte materna. Saúde da mulher.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Aborto. Morte materna. Saúde da mulher.. Mostrar todas as postagens

sábado, 28 de maio de 2011

A maternidade deve ser uma decisão livre e desejada.

O 28 de Maio é o Dia Internacional de Luta pela Saúde da Mulher e 
Dia Nacional contra a morbimortalidade Materna.
É um tema de muita importância para o feminismo porque historicamente o corpo da mulher tem sido um lugar de dominação do patriarcado, dos homens, do Estado e das Igrejas. Todos com mãos de ferro decidindo sobre os nossos destinos.
Nesta data, no mundo inteiro são realizadas ativididades pelas organizações de mulheres para dar visibilidade à luta e chamar a atenção sobre um problema que ainda afeta muitas mulheres. Foto: Dina Sfat. Google
É um dia de comemorar as conquistas, atualizar o debate e refletir sobre o longo caminho que ainda temos a percorrer. 
Por isso hoje é dia de blogagem coletiva das Blogueiras Feministas, que escolheram vários temas no universo da saúde das mulheres e da morbimortalidade materna.

O aborto é a terceira causa de morte materna no Brasil. Esse dado consta do dossiê  "A realidade do aborto inseguro: o impacto da ilegalidade do abortamento na saúde das mulheres e nos serviços de saúde do estado do Rio de Janeiro, realizado pelo Grupo Curumim e pelo IPAS Brasil, duas organizações feministas de Pernambuco e do Rio de Janeiro, respectivamente.
Embora o estudo tenha sido realizado no Rio de Janeiro, ele reflete a realidade de muitos estados brasileiros. Foi constatado que nas regiões Norte e Nordeste o aborto chega a ser a primeira causa de morte materna. São as jovens com idade entre 15 e 29 anos e mais pobres que mais sofrem as sequelas do procedimento inseguro do abortamento. Veja detalhes aqui

Em janeiro de 2010 foi realizada a Pesquisa Nacional do Aborto que foi elaborada pelo Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero (Anis) em parceria com o a UnB e realizada pelo Ibope. A pergunta respondida foi "Você já fez um aborto?". 
Considerando que o aborto é ilegal no Brasil, alguns cuidados foram tomados para garantir sigilo e segurança das entrevistadas. 

Por isso, as respostas eram depositados numa urna  e os questionários com dados sociais e demográficos eram preenchidos por entrevistadoras mulheres. Foram entrevistadas 2.002 mulheres com idade entre 18 a 39 anos, em todas as capitais. 

Segundo a pesquisa, uma em cada sete mulheres brasileiras já fez aborto, o que significa um grupo de cerca de 5,3 milhões de brasileiras, ou 15% da população em idade reprodutiva.
A maioria é de mulheres que tem um companheiro. Quase 60% delas já tem filhos. Quanto maior o grau de escolaridade, menor o número de mulheres que fizeram aborto. 
O Nordeste é a região onde um maior número de mulheres declarou ter feito um aborto.
Ainda segundo o estudo, 48% das mulheres usou algum tipo de medicamento para induzir o aborto.
Mais da metade das mulheres que abortaram (55%) ficaram internadas em decorrência de complicações, o que aponta para um problema de saúde pública, já que a internação supõe cuidados médicos. 

Essa pesquisa é parte de uma investigação sobre as políticas de saúde reprodutiva no Brasil e pode contribuir sobremaneira para ajudar a elaborar políticas públicas, reduzir a prática do aborto clandestino e impedir morte e sofrimento das mulheres. Uma em cada sete já abortou

No Brasil, o artigo 128 do Código Penal permite a prática do aborto apenas em dois casos: se não há como salvar a vida da gestante (aborto terapêutico) e quando a gravidez resulta de estupro (aborto sentimental). Esse direito é garantido desde 1940 quando entrou em vigor o Código Penal.

Estatuto do Nascituro.
Há um crescimento e organização de parlamentares fundamentalistas ligados a diversas Igrejas. 
Atualmente há pelo menos seis Projetos de Lei na Câmara de Deputados que retrocedem os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres, numa ofensiva conservadora com o objetivo de controle do corpo feminino.

Em maio de 2010 foi aprovado na Comissão de Seguridade Social e Família, o Projeto de Lei 478/2007, conhecido como o Estatuto do Nascituro - de autoria dos deputados Bassuma e Miguel Martini, tendo como relatora a deputada Solange Almeida. 
Se aprovado, o Estatuto do Nascituro representará um dos maiores retrocessos sociais.
O texto define que a vida humana começa na concepção, o que eliminaria a hipótese de aborto em qualquer caso.
Isso significa que uma gestante vítima de estupro não poderia interromper a gravidez.

Ainda segundo o PL 478 no Artigo 13, o agressor é obrigado a pagar uma pensão alimentícia à mulher violentada. Caso não seja identificado, cabe ao Estado tal pagamento. Por isso, o Estatuto do Nascituro foi apelidado de Bolsa-estupro.
O PL também prevê a proibição a "qualquer incitação" ou "apologia ao aborto", termos que sugerem cerceamento do direito de livre expressão e manifestação sobre a temática. 
Caso fosse aprovado por exemplo este post não poderia ser publicado.

O PL 478 representa, portanto, uma violação de direitos fundamentais no campo sexual e reprodutivo.


                               Mapa do aborto no mundo (2008)

O Mapa da Legislação sobre Aborto, foi produzido pelo Center for Reproductive Rights - Centro de Direitos Reprodutivos. Trata-se de uma ONG com sede em Nova York que pesquisou as leis em 196 países e estados independentes. O estudo divide o planeta em cinco categorias vermelho, vinho, laranja, azul e verde. Pela ordem, vai das leis mais duras às mais flexíveis. Mostra que o aborto é tratado no Brasil como no Haiti, no Paraguai e no Burundi (localizado na parte central da África).
O que queremos ser? Primeiro mundo ou terceiro mundo?

Segundo esse estudo, as nações com leis mais flexíveis, são as que resolveram melhor seus problemas sociais e econômicos.

O Ministério da Saúde em 2009 sistematizou 20 anos de publicações sobre o tema aborto no Brasil, com o objetivo de "fortalecer a agenda nacional de pesquisas sobre aborto, organizando o conhecimento disperso".
Como resultado foi recuperado 2.109 fontes em língua portuguesa, publicados por autores, periódicos e editoras nacionais ou estrangeiras.
Segundo a publicação, "o fio condutor da síntese foi o de recuperar dados que lançassem luzes sobre a tese do 'aborto como uma questão de saúde pública no Brasil'."
Esse relatório aponta a magnitude do aborto ilegal no país a partir da década de 90, quando o aborto induzido se manteve entre a terceira e a quarta causa de mortalidade materna em várias capitais brasileiras.


É um equívoco tratar o aborto como questão de política criminal, ao invés de tratá-lo como um problema de saúde pública.

Nós mulheres queremos autonomia sobre os nossos corpos. Queremos decidir quando e quantos filhos queremos ter. Descriminalizar o aborto e garantir a interrupção pelo Sistema Único de Saúde e pela rede complementar. Cabe ao Estado garantir esse direito. 
A maternidade deve ser uma decisão livre e desejada, uma opção para as mulheres e não uma obrigação.


Referência:
http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/livreto.pdf